01 — Contexto e escopo
O programa de assinatura não existia: a companhia decidiu criá-lo para evoluir a proposta de valor, com frete grátis no centro. Entrei como Group Product Manager para colocar essa jornada de pé junto com marketing: a minha responsabilidade era fazer a adesão acontecer, com squads dedicadas, sob forte restrição de time-to-market.
Os direcionais estratégicos vieram prontos. O meu trabalho foi traduzi-los em produto.
Foco em usuários de baixa frequência e novos usuários, um único plano no MVP, operação sobre plataformas especializadas em vez de infra própria. A tradução: uma jornada de adoção com visibilidade diferenciada por grupo (mais exposição para o público-alvo, menos para quem já comprava com boa frequência) e um mergulho nas plataformas para conectá-las aos nossos objetivos e à nossa arquitetura.
O programa rodou piloto de ~3 meses em uma cidade, ajustando plano e mecânica; depois veio a expansão, e o programa amadureceu até chegar a cerca de 1 em cada 4 clientes da base ativa.
E o lançamento não encerrava o trabalho: desde o início, o programa rodava com um acompanhamento recorrente dos dados da assinatura: adesão, comportamento de compra, uso dos incentivos. Foi essa disciplina, muito depois do lançamento, que revelou o furo que origina o resto deste case.
02 — O que os dados revelaram
Com o programa já rodando em escala, o furo apareceu nesse acompanhamento recorrente dos dados da assinatura. Cupons de upsell com baixa utilização, e assinantes que não usavam cupom com ticket médio menor do que antes de assinar. O cruzamento com a base geral fechou o quadro:
~25%
a mais de ticket médio
entre quem usava cupom,
no cruzamento com a base geral
~30%
de quem batia num erro
de resgate abandonava
a compra ali mesmo
O motor de incentivos do programa vazava exatamente na jornada que era minha.
03 — Decisão de produto
A leitura: o problema não era o incentivo. Era visibilidade e elegibilidade.
A hipótese foi a carteira de cupons: cada usuário vê só os cupons elegíveis à sua jornada, segmentáveis por perfil, sem resgate manual por código.
04 — Decisão de gente e craft
A carteira não nasceu num documento. Nasceu numa sessão de design thinking com marketing que eu puxei e facilitei quando o dado apareceu. A minha proposta foi a mais votada, mas saiu legitimada pelo grupo, não imposta.
03 — Decisão de produto
A âncora da carteira é a sacola, o ponto da jornada onde ainda dá para alavancar o ticket médio. O checkout, considerado, ficou de fora: tarde demais para mudar a composição da compra.
Priorizei a aposta contra o roadmap; a entrega saiu faseada em versões (MVP em etapas, evoluções comunicadas externamente, monitoramento de resgates na sequência) e o acompanhamento que já rodava para a assinatura se estendeu à carteira: indicador de produto e impacto financeiro por cupom, com a decisão de incluir ou retirar cada um tomada junto ao negócio.
E a lógica de exibição: cada usuário vê os cupons elegíveis e os quase-elegíveis: o “falta X para destravar” que empurra o ticket para cima. Essa decisão de interface é o mecanismo do resultado logo abaixo.
04 — Decisão de gente e craft
Na execução, o design saiu do designer da squad dedicada e o dia a dia ficou com uma PM dedicada, e eu mantive a autoridade de decisão e a barra de qualidade em dois gates: críticas de design comigo nos momentos de decisão e critérios meus para o teste de usabilidade antes do rollout, lançado de forma controlada por etapas (A/B 50/50, depois por região).
E o ciclo mudou o tamanho da PM: ela saiu apresentando os resultados da iniciativa diretamente ao C-level, no fórum executivo semanal.
05 — Resultado relativo
O primeiro efeito foi comportamental: o segmento-alvo, que quase não usava cupom, passou a usar: a adoção de cupom por pedido subiu no grupo com a carteira ligada. Com ela veio o ticket:
no ticket médio do segmento-alvo
efeito causal, teste vs. controle · sustentado pós-rollout
~metade retorna como desconto: de ~+2 a 3% líquido
na aquisição semanal de novos assinantes, acima do controle
rollout faseado por região usado como quase-experimento
reforçando o principal gatilho de conversão de novos usuários
E o erro de resgate saiu da jornada por desenho: sem código para digitar, sem estado de falha: o abandono que nascia ali deixou de ter onde acontecer.
06 — O que eu faria diferente
A carteira muda o comportamento de quem já está dentro do app. Não serve para oferta que precisa ser explícita na entrada. O cupom de novo usuário, migrado para a carteira, só aumentou a fatia da receita devolvida em desconto: esses usuários saíram. Hoje eu segmentaria o instrumento pelo momento da jornada desde o começo, em vez de aprender isso em produção.